<T->
          Moby Dick 

          Herman Melville
                                 
<F->
Impresso Braille, em 2 partes, 
na diagramao de 28 linhas por
34 caracteres, 1 edio, 
Editora DCL -- So Paulo -- 2005
<F+>

          Segunda parte

          Ministrio da Educao
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
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          -- 2007 --
<p>
          Copyright (C) 2005 do 
          texto: Fernando Nuno 
          Rodrigues
          Copyright (C) 2005 da 
          edio: Editora DCL -- 
          Difuso Cultural do livro
          
          Diretor Editorial: 
          Raul Maia Jr.
          Editora Executiva: 
          Otaclia de Freitas
          Editor de Literatura: 
          Vitor Maia
          
          Editora DCL -- Difuso 
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<p>


                                I
 Sumrio

 Segunda Parte

 10. Encontros marcantes ::: 85
 11. Rumo ao oceano
  Pacfico ::::::::::::::::: 96
 12. Cada vez mais
  prximo ::::::::::::::::::: 115
 13. O encontro final :::::: 132
 Concluso :::::::::::::::::: 141

 O vocabulrio deste
  livro ::::::::::::::::::::: 143
 Uma histria repleta de
  sentidos :::::::::::::::::: 150
 Os nomes e os temas
  bblicos :::::::::::::::::: 154
 Quem escreveu
  Moby Dick ::::::::::::::: 158
 A vida difcil depois de
  Moby Dick ::::::::::::::: 165
<54>
<p>
<tmoby dick>
<t+85>
 10. Encontros marcantes

  Ao longo das semanas anteriores, havamos passado por quatro diferentes reas de navegao no oceano Atlntico: a das ilhas dos Aores, a regio de Cabo Verde, a do rio da Prata e a de Carrol, ao sul da ilha de Santa Helena.
  Nessa ltima regio, numa noite enluarada, um jorro prateado foi avistado ao longe por Fedul. Era meia-noite. Normalmente, os baleeiros no perseguem animais avistados a essa hora, devido  dificuldade provocada pela escurido. Fedul j havia passado vrias noites de vigia no mastro principal, tentando avistar baleias, mas foi incisivo naquele momento:
  -- L est ele a esguichar!
  Imediatamente, Acab ordenou que se tomassem providncias para a perseguio. Sua perna de marfim ressoava com energia no convs, cada passo daquela perna morta parecia o rudo de uma pancada num caixo de defunto.
  No entanto, nada foi possvel encontrar naquela noite. Assim, o 
jorro da meia-noite j estava quase esquecido quando, alguns dias depois,  mesma hora, foi avistado novamente. Todos pudemos v-lo, ao longe. Mais uma vez, desfraldamos todas as velas para alcan-lo, mas ele logo desapareceu, como se nunca tivesse existido. A partir de ento, quase todas as noites, refletindo o luar ou o brilho das estrelas, podamos ver aquele jorro que nos atraa e escapava indefinidamente, a tal ponto que quase nem prestvamos mais ateno nele.
<55>
  Muitos marinheiros do *Pequod*, supersticiosos como a maioria dos colegas de profisso, juravam que era Moby Dick; alguns acrescentavam que o grande cachalote branco estava nos atraindo traioeiramente, cada vez para mais longe, onde poderia nos atacar de repente, destruindo-nos longe de qualquer terra civilizada.
  Quando dobramos o cabo da Boa Esperana, os ventos uivantes faziam nosso navio subir e descer nas ondas imensas. No entanto, o ambiente se tornava mais sombrio e a gua parecia mais espessa. Estranhas formas corriam na superfcie  nossa frente: eram corvos-do-mar, que em seguida subiam para se instalar enfileirados nos mastros.
  Cabo da Boa Esperana? Pois acho que o nome antigo, cabo das Tormentas, dado pelo navegante portugus Bartolomeu Dias, era realmente o mais adequado. Os peixes e as aves daquele oceano pareciam criaturas condenadas, percorrendo o ar escuro em que no se via o horizonte e sem conseguir encontrar refgio em terra.  noite, ainda avistvamos, de vez em quando, o jorro prateado.
  Acab quase no falava mais, nem com os imediatos. Ficava horas a fio a perscrutar a distncia, com a perna de marfim apoiada no orifcio habitual. Os marinheiros que normalmente ficavam na proa, enxotados pelas ondas enormes, passaram a ficar alinhados junto s amuradas laterais.
  Seguimos para sudeste do Cabo, quando, prximo s longnquas ilhas Crozet, surgiu  nossa frente um grande veleiro, o *Albatroz*.  sempre uma sensao estranha encontrar um baleeiro que est h muito tempo distante de seu pas.
  O *Albatroz* j levava quatro anos de viagem. A aparncia dos marinheiros, de barbas compridas, com as roupas rotas e remendadas muitas vezes, somada ao aspecto do navio, com os costados da cor da ferrugem, as vergas das velas e as cordas brancas, cobertas de geada -- tudo aquilo dava a impresso de um navio soturno, espectral, povoado por homens desamparados.
  De repente ouviu-se uma voz, vinda do nosso passadio:
  --  do navio! Por acaso viram o cachalote branco?
  No entanto, quando o outro capito colocava o falante diante da boca para responder, o instrumento caiu de sua mo para a gua do mar. Ele ainda tentou gritar alguma coisa, mas no conseguamos ouvir, enquanto o vento ia afastando o
<56>
navio deles do nosso.
 Acab gesticulou, como se fosse ordenar que um bote fosse baixado para ir at o *Albatroz*, mas o mar agitado impediria a aproximao.
  Pelo silncio dos nossos marinheiros, logo percebi que achavam que o acidente com o falante acontecera s por causa da referncia  grande baleia. Acab colocou novamente seu prprio falante diante da boca e gritou para os do *Albatroz*:
  --  do navio! Somos o *Pequod*, e vamos dar a volta ao mundo. Digam a quem encontrarem que a correspondncia para ns deve ser enviada ao oceano Pacfico. Daqui a trs anos, se ainda no tivermos voltado, mandem escrever para...
  Nesse momento, os cardumes de peixes pequenos que nadavam junto ao costado do *Pequod* foram se afastando, para se alinhar ao lado do *Albatroz*. Acab apenas disse, olhando para a gua:
  -- Ento quer dizer que esto fugindo de mim?... Tripulao, mantenham o leme erguido, vamos dar a volta ao mundo!
  Algumas semanas depois de termos encontrado o *Albatroz*, cruzamos com outro navio baleeiro, o *Town Ho*, que voltava para casa depois de um longo perodo pescando no mar. Alm de tratar de outros assuntos, a tripulao nos deu notcias seguras sobre a localizao de Moby Dick nas semanas anteriores. Tendo conhecimento de algumas tragdias causadas pelo grande cachalote branco aos que tinham ousado tentar persegui-lo, aqueles marinheiros haviam preferido deix-lo em paz.
  Seguimos para nordeste, a partir das ilhas Crozet, e demos numa 
regio do mar coberta de plncton, um aglomerado de minsculas 
substncias marinhas; a principal delas  um pequeno camaro, o 
*krill*, e constitui o principal alimento das baleias verdadeiras; j os cachalotes se alimentam tambm de animais maiores, como lulas e at tubares.
  Logo no segundo dia vimos uma grande quantidade de baleias, que nadavam tranqilamente, com as imensas mandbulas abertas, usando a barbatana da boca para separar o plncton da gua, que escorria pelas beiradas. No se assustaram com a nossa presena, at parece que sabiam que o *Pequod* era um navio especializado em cachalotes e iria deix-las em paz.
<57>
  Nossa rota prosseguia, vagarosa, em meio ao plncton, na direo da ilha de Java. Um dia, em meio  tranqilidade daquele mar, um grande corpo branco se ergueu na superfcie, reluzente ao sol da manh, e logo tornou a mergulhar. Quando ele reapareceu, Dagu ps-se a gritar, do alto do mastro:
  -- L est ele!  o cachalote branco!
  Num instante os quatro escaleres estavam na gua. O de Acab, como era de se prever, ia mais rpido, na frente. Quando nos aproximvamos do ponto em que a enorme massa branca havia feito o ltimo mergulho, vimos que ela surgia novamente. Ficamos espantados ao perceber que, em vez de um cachalote, aquilo era um imenso corpo carnudo que parecia ter mais de cem metros de comprimento e largura, a flutuar, com um grande nmero de tentculos se enrolando e desenrolando como um ninho de cobras. Parecia querer pegar qualquer coisa que cruzasse seu caminho.
  Quando ela mergulhou, Starbuck disse:
  -- Seria prefervel ter encontrado Moby Dick.
  -- Por qu? -- perguntou Flask.
  -- Isso  uma lula-gigante. Poucos marinheiros voltaram para contar que encontraram esse animal.
  Em silncio, Acab virou o bote, seguido por todos os outros, e voltamos para o navio.
  J a bordo, Quiqueg disse uma coisa bem diferente da opinio de Starbuck:
  -- Quando lula-gigante aparece, logo vem cachalote.
  Com efeito, no dia seguinte, quando eu estava no topo do mastro da proa, avistei um grande cachalote que brilhava ao sol para o lado de sotavento. Assim que dei o alerta, Acab foi o primeiro a mandar baixar o bote.
  Logo o cetceo mergulhou, e ficamos  espera. Assim que ele subiu, 
Stubb era o que se encontrava mais prximo, por isso entendeu que a presa lhe pertencia.
  -- Voem! Fiquem frios, mas faam o bote voar -- dizia Stubb, mantendo a dianteira sobre os outros escaleres, que tambm comearam a perseguir o cachalote.
<59>
  Quando Stubb deu a ordem,
 Tachtego jogou o arpo. A grande baleia foi atingida e comeou a fugir, esticando a corda do arpo. Todos se agarraram bem aos bancos em que estavam sentados. Stubb mandava molhar a corda o tempo todo, para que ela no fizesse cortes nas mos dos marujos ao pux-la.
  O mar, agitado pela perseguio, parecia uma srie de cascatas.
  -- Rpido, vamos atacar pelo flanco -- ordenou Stubb.
  Quando conseguiram se colocar lado a lado com o cachalote,
 Stubb comeou a atirar dardos no animal. Quando o sangue comeou a se misturar cada vez mais com a espuma, Stubb cravou uma lana comprida no corpo da grande baleia, segurando-a com fora at v-la morta.
  Todos os escaleres, reunidos, foram necessrios para puxar com suas 
cordas o cachalote at o navio. Acab simplesmente mandou amarrar o 
animal ao costado do navio e se recolheu em silncio. Aquela quietude 
contrastava com sua animao ao iniciar a perseguio: ele parecia lembrar, com tristeza, que o cachalote que verdadeiramente lhe interessava caar, Moby Dick, ainda estava em algum lugar dos mares.

               oooooooooooo

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<p>
<R+>
 11. Rumo ao oceano Pacfico
<R->

  Stubb apreciava muito a carne de baleia. Assim, naquela noite, o segundo-imediato no quis se deitar sem antes comer um fil do cachalote que havia caado.
  Enquanto ele comia seu bife, l embaixo comeava um outro banquete: o dos tubares. Tendo descoberto a carne fresca que estvamos rebocando, uma boa quantidade desses aougueiros dos mares j se havia juntado para, saltando sobre o corpo da grande baleia, abocanhar belos pedaos. Algum poderia perguntar quem seriam os autnticos aougueiros e os verdadeiros tubares: se ns, os tripulantes dos navios baleeiros, ou os grandes peixes carnvoros do mar.
  Normalmente, as baleias eram recolhidas a bordo e retalhadas em seguida. Quando, porm, a caa terminava  noite, e depois de uma perseguio mais cansativa, era normal deixar o animal amarrado ao costado do navio para fazer o servio de manh.
  Em mares em que havia muitos tubares, no entanto, se a baleia fosse deixada fora a noite toda, pela manh s se encontraria seu esqueleto, polido pelos dentes vorazes dos peixes. Por isso, quando Stubb terminou sua refeio, depois de termos passado um bom tempo a ouvir a balbrdia dos tubares, Quiqueg e um companheiro colocaram as plataformas para fora, suspensas ao lado da amurada. De l, desceram lanternas para iluminar as guas.
  Os tubares ficaram alvoroados. Os dois marinheiros comearam a mat-los com golpes na cabea, dados com as ps de cortar carne de baleia. Os outros caes 
<61>
ficaram ainda mais encarniados, e puseram-se a devorar com ferocidade crescente os companheiros mortos. Os que estavam feridos chegavam at a se encurvar para comer as prprias vsceras, que pareciam sair vrias vezes do mesmo corpo para entrar outra vez pela boca.
  De manh, livres finalmente dos tubares, nossos marinheiros passaram a cortar a gordura e a carne do cachalote. A gordura era derretida e guardada em barris; a carne, retalhada, era salgada e armazenada em caixas.
  Enquanto isso, a brisa comeou a ficar mais forte, quase ventania. 
A certa altura, cruzamos com o *Jeroboo*, de Nantucket. Baixamos a escada, convidando o capito desse navio a nos visitar. Porm ele, depois de ter descido ao bote, para poder falar de mais perto, respondeu que haviam tido uma estranha epidemia a bordo. Por isso, no subiria a visitar-nos, para no correr o risco de transmiti-la.
  De repente, Stubb exclamou, apontando para um dos remadores do bote, um fulano mido, loiro e cheio de sardas:
  -- Vejam, o sujeito esquisito de quem os marinheiros do *Town Ho* falaram!
  Ele estava se referindo a uma histria contada pelos tripulantes do 
outro navio, sobre um fantico religioso que havia praticamente 
dominado o *Jeroboo*. Logo depois que o navio partira, o sujeito 
havia dito que era o arcanjo Gabriel, alm de afirmar repetidamente que tinha vises msticas. A seriedade com que ele falava, e o fato de repetir tanto o assunto, somado  sua aparncia estranha, fez que todos a bordo adquirissem medo dele. O capito, que no acreditava em nada daquilo, ainda pensou em desembarc-lo no primeiro porto, mas Gabriel impressionou tanto a tripulao que os marinheiros declararam que, se ele fosse despedido, sairiam todos do navio junto com ele. No decorrer da viagem, Gabriel disse aos marinheiros que havia uma epidemia a bordo que poderia matar a todos e s seria interrompida quando ele quisesse. A histria toda era incrvel, mas verdadeira. O que se diz a respeito dos fanticos, que vivem mergulhados em iluses, no surpreende tanto como o poder que eles adquirem de enganar e enfeitiar outras pessoas.
  Diante da frase de Stubb,
 Acab se lembrou dessa histria, contada pelos do *Town Ho*, e disse do alto da amurada ao capito do *Jeroboo*:
  -- No tenho medo dessa tal epidemia. Suba, e vamos conversar.
<62>
  Imediatamente Gabriel se levantou, no bote:
  -- Cuidado com a febre e a epidemia! A horrvel praga!
  -- Gabriel! Pare com is... -- ia comeando o outro capito, mas uma onda mais forte jogou o bote para uma distncia maior, e o barulho das guas interrompeu sua fala.
  -- Vocs viram o cachalote branco? -- retomou Acab.
  -- Cuidado, cuidado -- Gabriel voltou  carga --, pense no seu escaler despedaado, afundado. Lembre-se da cauda terrvel!
  -- Gabriel, pode se... -- ia dizendo o outro capito, mas outra onda forte interrompeu-o, mais uma vez. A cabea do cachalote caado por ns, ainda pendurada junto ao casco, balanou com violncia.
  Depois de algum tempo de silncio, o capito do *Jeroboo* comeou a contar uma histria nefasta envolvendo Moby Dick, com vrias interrupes da parte de Gabriel. Em resumo, logo depois de zarpar de Nantucket, o *Jeroboo* havia cruzado o caminho de outro baleeiro, que contara uma histria trgica envolvendo Moby Dick. A partir da, Gabriel proibiu terminantemente o capito de se envolver com o cachalote branco, pois ele seria nada mais nada menos que Deus encarnado em baleia, segundo a seita dele, Gabriel.
  Uns dois anos depois disso, o imediato do *Jeroboo* avistou Moby 
Dick e resolveu ca-lo num escaler com mais cinco homens, autorizado 
pelo capito. Conseguiram arpoar o cachalote e, quando j cantavam 
vitria, a imensa cauda branca se ergueu das guas, num movimento 
rpido, e atingiu o imediato, que se chamava *Harry
 Macey*. O infeliz marinheiro subiu nos ares, traando um arco, para afundar nas guas a cinqenta braas de distncia. Milagrosamente, nem um fio de cabelo dos cinco remadores foi tocado pela cauda do cachalote. Apenas o imediato desapareceu para sempre.
  Diante disso, Gabriel fez a tripulao desistir por completo da caa quele cetceo, e a influncia do "arcanjo" s fez crescer entre os marujos. No final da histria, o comandante do *Jeroboo* perguntou a Acab se realmente pretendia caar Moby Dick.
  Diante do sim do nosso capito, Gabriel se levantou novamente e 
exclamou:
<64>
  -- Cuidado! Lembre-se do infame que afundou e morreu! Cuidado para no ter o mesmo fim!
  Acab agiu como se no tivesse ouvido nada e disse ao colega:
  -- Temos uma carta para o seu navio. Starbuck, v busc-la.
  Ao embarcar, os baleeiros sempre levavam cartas de parentes dos marinheiros que estavam no mar, muitas vezes havia mais de um ano longe de casa, para o caso de encontr-los em seu caminho. As rotas percorridas por eles facilitavam esses encontros.
  Starbuck trouxe a carta e ia coloc-la na ponta de uma lana comprida para estend-la at o bote, quando Acab leu o envelope:
  -- "Para o imediato Harry
 Macey, do navio *Jeroboo*".
  -- Coitado! -- respondeu o outro capito. -- Pode deixar a carta comigo.
  -- No! Guarde-a com voc mesmo! -- gritou Gabriel, dirigindo-se para Acab. -- Logo voc ir seguir o mesmo caminho que ele.
  -- Vire essa boca para baixo, para no morrer sufocado pelas pragas -- respondeu Acab, colocando a carta na ponta da lana e estendendo-a para o bote.
  O vento, porm, fez que ela ficasse ao alcance da mo de Ga-
 briel. Rapidamente, ele apanhou a carta e espetou-a num faco que tirou do bolso, atirando-a para o nosso convs. O faco, com a carta espetada, caiu junto aos ps de Acab. Enquanto isso, Gabriel ordenou aos tripulantes do bote que voltassem para bordo do *Jeroboo*.
  Os nossos marinheiros ficaram muito impressionados com tudo aquilo.
  Enquanto isso, continuvamos a atravessar regies de plncton, o que indicava a proximidade de baleias verdadeiras. J tnhamos avistado muitas delas, principalmente perto das ilhas Crozet, mas Acab no havia autorizado a pesca, pois s queria o cachalote. Agora, porm, que tnhamos aquela enorme cabea presa no costado, o capito permitiu que uma baleia verdadeira fosse capturada.
  -- Aquele bruxo amarelo que  Fedul parece saber tudo sobre feitios -- contou Stubb a Flask. -- Ele me disse que um navio nunca afunda se tiver uma cabea de cachalote amarrada a estibordo e outra de baleia verdadeira suspensa a bombordo.
  Em pouco tempo, Stubb e Flask conseguiram alcanar a baleia, e a maior parte do produto obtido com ela seria incorporado ao lucro que ambos poderiam
<65>
ter com a viagem. Logo, com as duas cabeas penduradas, o *Pequod* parecia um burro a carregar dois cestos pesados, um de cada lado.
  Passado algum tempo mais de navegao, encontramos o baleeiro alemo *Jungfrau* (que significa "Virgem"). Subindo a bordo do *Pequod*, o capito Derick, do outro navio, veio nos pedir azeite, pois ainda no haviam conseguido pegar nenhuma baleia, e no tinham mais desse lquido precioso para a alimentao e a iluminao.
  Enquanto ele estava conversando com Acab, avistou-se um grupo de oito baleias, e os escaleres de ambos os navios foram baixados para persegui-las. Os nossos eram mais rpidos, e conseguimos arpoar o nico cetceo do grupo que foi possvel pescar, um cachalote.
  Porm, para surpresa de todos, o animal comeou a afundar assim que foi atingido. Aquilo era totalmente inusitado, pois normalmente o cachalote capturado flutua com bastante leveza.
  Enquanto isso, os escaleres do *Jungfrau* tinham voltado para o navio, mas logo foram avisados de que uma baleia de barbatana dorsal tinha sido avistada. Imediatamente se puseram a persegui-la, e foi assim que se despediram de ns. Ficamos a lamentar sua sorte, pois todos sabem que no  possvel capturar a baleia de barbatana dorsal, uma vez que ela nada rpido demais para a velocidade dos botes.
  Seguimos nosso rumo e poucas semanas depois deixamos o oceano ndico, atravessando o estreito de Sonda, entre as ilhas de Java e Sumatra. Dali, navegando ao longo dos arquiplagos da Indonsia e das Filipinas, chegaramos aos mares da China e do Japo, no oceano Pacfico, em tempo para a temporada de pesca da baleia.
  Logo depois do estreito, avistamos no horizonte uma grande fileira de jatos de cachalotes. Corremos para l e nos pusemos a atac-los. Capturamos apenas um. Os outros escaparam; entre eles, um ainda ficou bastante ferido, mas logo voltaramos a encontr-lo.
  Uma semana ou duas depois disso, navegando vagarosamente naqueles 
mares calmos entre as ilhas, demos com um navio baleeiro francs, o 
*Bouton de
<66>
Rose* ("Boto de Rosa"). Um mau cheiro incrvel vinha dele: tinham pescado, j morto, o cachalote ferido por ns na ltima caada. Porm, ainda no haviam tido tempo de retalhar o animal para recolher o leo. Pelo tamanho do cachalote,  fcil imaginar o imenso fedor que ele exalava. A maioria dos baleeiros se recusa a capturar animais encontrados assim, cadveres a boiar e fceis de capturar -- tanto mais que a qualidade do leo, j deteriorado,  bastante inferior.
  Stubb jurou que estava reconhecendo a sua p de cortar carne de baleia, cravada no dorso do cachalote. Concordamos em que o *Boto de Rosa* devia ter bastante dificuldade para caar baleia fresca, j que pegavam os restos dos outros.
  Quando nos aproximamos, prendendo o nariz com os dedos e respirando pela boca, a primeira pergunta de Acab a eles foi:
  -- Por acaso viram o cachalote branco? Moby Dick?...
  Era engraado ver a tripulao do outro navio, todos com o nariz amarrado ou enfiado numa espcie de saco pequeno. Alm disso, era claro que aqueles franceses estavam todos de muito mau humor. O capito deles no estava  vista, mas um imediato respondeu:
  -- No, nunca ouvimos falar nesse tal cachalote branco.
  Stubb aproveitou para dar conselhos:
  -- Ei, *Boto de Rosa*, vocs no sabem que  desperdcio tentar extrair o leo de uma baleia nessas condies? Esse cachalote j est to murcho que no deve dar nem uma caneca que se aproveite.
  -- Ns sabemos muito bem disso -- respondeu o outro --, mas o nosso capito no quer acreditar. Ele era fabricante de perfume, antes... Quem sabe o capito escute vocs? No querem falar com ele?
  -- Claro, amigo. Vou ver no que posso ajudar... -- disse
 Stubb, e subiu a bordo do Boto de Rosa, amarrando um pano no nariz.
  Levado at o capito do navio, que s falava francs e no entendia a nossa lngua, Stubb foi logo dizendo:
  -- Ele mais parece uma criana brincando com um navio.
  -- *Monsieur*, o imediato do *Pequod* est contando que encontrou 
outro navio que havia pescado uma baleia j morta. Trinta e seis 
marinheiros morreram de in-
<67>
 feco por causa disso -- o outro imediato "traduziu" para o seu capito, que pareceu se assustar e querer saber mais sobre o caso.
  -- E tem mais -- retomou Stubb --, ele ou um macaco comandar o navio  a mesma coisa.
  O imediato do *Boto de Rosa* continuou a falsa traduo:
  -- O senhor Stubb nos aconselha a nos livrarmos da baleia morta o mais rpido possvel, se quisermos continuar vivos e com sade...
  Foi o suficiente. O capito se apressou a ordenar  tripulao que soltasse o cachalote morto amarrado ao costado do navio. Ao despedir-se, Stubb ainda disse ao imediato, mas dirigindo-se ao capito:
  -- Pode dizer a ele que no  to bobalho como pensei...
  -- O nosso amigo disse que est muito feliz por ter podido ser til ao nosso navio -- falou o imediato.
  O capito mandou agradecer, e convidou Stubb para tomar um vinho francs. Stubb recusou, dizendo ao imediato:
  -- No posso tomar vinho com um homem enganado por mim.
  O imediato "traduziu" assim a ltima frase:
  -- Ele disse que no pode beber, mas afirma que, se o senhor quiser continuar vivo para tomar vinho amanh, tem que afastar nosso navio imediatamente da baleia morta, que ainda est boiando.
  Depois que o *Boto de Rosa* se afastou  que pudemos ver qual era a real inteno de Stubb. Ele foi num bote, com o nariz protegido, at perto da baleia morta, e escavou suas entranhas at encontrar a bolsa de mbar gris, uma substncia perfumada e carssima que se encontra, de modo incrvel, nos intestinos do cachalote doente. O mbar gris era usado em perfumaria, velas aromticas, incensos e cremes luxuosos para cabelo.
  Nossa tripulao geralmente era alegre e cheia de piadas. Alguns dias depois do encontro com os franceses, porm, ocorreu algo que nos fez pensar nas coisas ms que podiam acontecer a qualquer um de ns.
  O nosso mais humilde marinheiro era um negro miudinho e muito 
sorridente, que tocava pandeiro e era querido por todos a bordo. O 
apelido dele era Pip  ("Semen-
<68>
 tinha"). Estava sempre junto com o cozinheiro "Pastel de Farinha", um sujeito branco e gordo, e com ele formava uma dupla impagvel. Pip tinha uma grande vivacidade, uma inteligncia que logo compreendia tudo; j o Pastel de Farinha era um tipo meio obtuso, que demorava a entender as coisas, provocando grandes confuses.
  Para Pip todo dia parecia feriado ou ano-novo. Por isso, toda a tripulao ficou ainda mais abalada com o que lhe aconteceu. Pois o fato  que logo encontramos outro cachalote, e Pip desceu como remador num dos botes. Quando o cetceo foi atingido pelo primeiro arpo, deu uma pancada no escaler, bem embaixo do assento de Pip. Assustado, ele deu um salto e caiu na gua, preso na corda do arpo. O cachalote ferido comeou a fugir em disparada, esticando a corda, que havia dado vrias voltas no peito e no pescoo do remador.
  Foi assim, num belo dia de cu azul, que Pip quase morreu.
 Stubb cortou a corda com a faca, para salv-lo, quando ele j estava azul, asfixiado pela falta de ar. Desse dia em diante ele passou a perambular pelo convs, dizendo coisas sem nexo; perdeu completamente o juzo. Parecia que o mar havia conservado seu corpo, mas tinha afogado sua alma.
  Finalmente, depois de bordejar os arquiplagos do sul da sia, chegamos ao mar aberto, o imenso oceano Pacfico. Existe algum doce mistrio naquele mar, pois quem o conhece se torna como que dominado por ele, passando a considerar o Atlntico e o ndico como se fossem seus afluentes. O Pacfico parece o corao do mundo, a pulsar com as mars.
  Acab contemplava o mar profundo, sabendo que em algum lugar dele devia se encontrar o odiado cachalote branco, Moby Dick.

               oooooooooooo

<70>
<p>
 12. Cada vez mais prximo

  Naquela regio do oceano Pacfico pudemos encontrar vrios outros 
navios baleeiros. O primeiro deles foi o *Bachelor* ("Solteiro"), de Nantucket, que comeava a voltar para casa com os pores e o convs repletos de barris de leo. Enquanto outras embarcaes tinham dificuldade em encontrar e pescar um s peixe que fosse naquela mesma rea, o *Bachelor* havia sido extremamente bem-sucedido. Foi um grande contraste o encontro do *Bachelor*, cheio de alegria, com o nosso triste navio.
  O capito Acab fez a pergunta habitual:
  -- Viram o grande cachalote branco?
  -- No, s ouvimos falar nele. Mas no acredite nessas histrias, no leve o bicho a srio. Estamos abarrotados. Venha comemorar conosco.
  -- Que excesso de autoconfiana o desse idiota -- comentou Acab, em voz baixa. Depois respondeu: -- Voc est abarrotado e voltando. Eu ainda estou vazio, e indo. Siga o seu caminho que eu sigo o meu. Adeus.
  E l foi o *Bachelor*, com o vento a favor, enquanto ns amos lutando entre as foras contrrias.
  Alguns dias depois, cruzamos com o *Raquel*. Todos os marinheiros desse navio pareciam estar no convs, olhando por cima da amurada, preocupados, tentando avistar alguma coisa -- alm dos que ficavam nos cestos do topo dos mastros. A resposta  pergunta costumeira de Acab foi inesperada:
<71>
  -- Sim, encontramos o cachalote branco ontem. Vocs no viram um escaler  deriva?
  Acompanhado de alguns marinheiros, o outro capito veio ao *Pequod* para falar com Acab. Pela conversa entre os dois ficamos sabendo que no dia anterior, quando trs dos botes deles estavam caando um grupo de baleias a barlavento, Moby Dick, identificado pela cabea e pela corcova igualmente brancas, tinha subido  tona na direo oposta, a sotavento. Imediatamente, o quarto escaler do *Raquel* desceu para perseguir o cachalote. Conseguiram atingir Moby Dick com o arpo, mas o imenso animal disparou para longe, arrastando o bote at sumir no horizonte. Os outros trs escaleres voltaram para o navio, que desde o dia anterior tentava localizar esse outro bote desaparecido. Finalmente, o capito do *Raquel* convidou o nosso a se juntar a ele na busca.
  -- Aposto que algum no bote estava com o casaco preferido do 
capito, ou o relgio dele
 -- Stubb comentou com Flask. -- Onde j se viu dois navios perderem tempo buscando um escaler perdido no auge da estao de pesca da baleia?
  -- Meu prprio filho est nesse escaler -- disse o outro capito a Acab, sem ter ouvido o comentrio de Stubb. -- Eu lhe imploro, quero contratar seu navio por quarenta e oito horas para me ajudar na busca.
  -- Acho que vou ter de engolir o casaco e o relgio -- sussurrou Stubb. -- Vamos ajudar a procurar o filho dele.
  O caso era ainda mais triste porque o filho desaparecido do capito era um menino de apenas doze anos; os capites de navios de Nantucket procuravam iniciar seus filhos na atividade o mais cedo possvel. Alm disso, outro filho do capito, irmo mais velho do outro, tambm estava a bordo, compartilhando -- e ampliando -- a aflio do pai.
  No entanto, Acab pareceu receber o pedido com uma frieza glida, e se mantinha irredutvel diante da insistncia do *Raquel*.
  -- S saio do seu navio depois de obter sua concordncia --  dizia 
o outro capito. -- O senhor tambm tem um filho, capito
 Acab!
  -- Peo que se retire. J estou perdendo tempo demais com essa 
histria -- disse Acab, obcecado pela idia de que Moby Dick se 
encontrava to prximo. -- Capito Gardiner, no vou fazer o que est me pedindo. Adeus. Espero que eu prprio possa me perdoar pelo que estou fazendo, mas preciso continuar minha viagem. Starbuck, tome as providncias para que nossos visitantes se retirem em trs minutos.
<72>
  Gardiner ficou imvel, estupefato, e demorou um pouco para conseguir reagir e voltar ao seu navio. Quando nos afastamos, vimos que o *Raquel*, como um navio sem rumo, cruzava as guas a cada momento para um sentido diferente, ora contra o vento, ora a favor, atrs de qualquer sombra que aparecia no horizonte.
  Um velho marinheiro do *Pequod* comentou:
  -- O filho dele est morto! E todos os outros do escaler tambm. Eu ouvi os espritos deles esta noite.
  Nos dias seguintes, Acab parecia cada vez mais agitado, mas nem sinal de Moby Dick. O *Pequod* seguia sua rota como se nada de estranho estivesse acontecendo, quando avistamos o *Delight* ("Deleite"). O nome no parecia nada adequado ao navio, pois via-se que tinha sofrido um grande acidente. Podia-se enxergar entre as tbuas quebradas do que parecia ser um bote pendurado a um dos lados como se fosse o esqueleto de um cavalo.
  -- Viram o cachalote branco? -- foi a pergunta, invarivel, de
 Acab.
  -- Veja isto! -- respondeu o outro capito, apontando para os destroos.
  -- Vocs o mataram?
  -- Ainda no foi fabricado o arpo que conseguir fazer isso.
  -- Como no? -- retrucou Acab. -- Olhe para isto!
  E sacudiu no ar um dos nossos arpes de ao.
  -- Que Deus o ajude! -- respondeu o outro capito. -- Ainda ontem estavam vivos cinco dos nossos companheiros, que hoje no esto mais aqui. O seu navio est navegando sobre a sepultura deles...
  Entendendo que Moby Dick devia estar bem prximo, Acab ordenou imediatamente:
  -- Vamos, para diante! Rpido, j!
  Enquanto nos afastvamos do arruinado Deleite, ouvimos uma voz que vinha do outro navio:
  -- No adianta fugir do nosso funeral! Vocs esto se afastando, mas ns j podemos ver que seu navio ser o seu prprio caixo.
<74>
  Aquela noite, Acab parecia estar farejando o ar quando disse:
  -- A baleia est perto!
  Logo, todos sentimos aquele cheiro peculiar que s vezes os cachalotes exalam a grande distncia.
  Pela manh, o capito Acab mandou fazer todos os preparativos para uma grande perseguio, mas ningum avistava nada l de cima. Ele ordenou ento que o transportassem para o topo do mastro mais alto. Antes de chegar l, porm, gritou:
  -- L est ele, esguichando! A corcova branca...  Moby Dick!
  Os trs vigias gritaram logo em seguida, ao mesmo tempo: o cachalote branco estava a quilmetro e meio de distncia. Acab continuou:
  -- Fui eu quem viu primeiro! A moeda  minha!... Aprontem os botes! Starbuck fica cuidando do navio. Preparem-se, vamos remar contra o vento.
  Num instante todos os escaleres, menos o de Starbuck, foram baixados. O de Acab ia na frente, com Fedul fazendo caretas assustadoras.
  L na frente, o cachalote deslizava, calmo e sedutor. Depois de algum tempo, mergulhou, abanando com a cauda como se nos desse um adeus -- ou um aviso...
  Os trs botes ficaram a flutuar, aguardando a volta de Moby Dick  superfcie. As aves marinhas permaneciam a voejar em volta de ns. Espervamos que o cachalote demorasse algum tempo l embaixo, mas de repente os pssaros comearam a se agitar, enquanto o mar formava ondas.
  Acab tentou enxergar alguma coisa entre as guas, at que viu a mancha branca que subia velozmente. A princpio no parecia maior que um gato, mas logo se viu a imensa mandbula, a enorme boca aberta de Moby Dick. Acab mandou girar o bote de modo a colocar a proa de frente para o cachalote.
  Moby Dick, porm, usando a inteligncia maligna que lhe atribuam, virou-se tambm, de modo que praticamente abocanhou a proa ao subir, espetando um remo com os dentes, a um palmo da cabea de Acab, e mais alto que ele. Fedul parecia calmo, mas seus tripulantes se amontoaram, apavorados, na popa do escaler. O cachalote branco sacudiu a madeira do bote, como um gato a brincar com o rato que caou.
<75>
  Com a proa quase dentro da boca de Moby Dick, era impossvel usarmos o arpo. Como o cachalote mantinha o corpo dentro da gua, os outros botes no conseguiam achar posio adequada para atirar.
  Furioso, Acab tentou desprender com as prprias mos o bote da mandbula do inimigo. Quase deslizou para dentro da enorme boca, mas caiu para o lado, direto no mar. A mandbula se soltou, mas voltou a bater com fora, partindo o bote ao meio.
  Moby Dick se afastou um pouco, e a tripulao se agarrava como podia aos dois destroos. O cachalote abaixou e ergueu vrias vezes a cabea, provocando grandes ondas, que atingiam Acab e os outros. Depois, na posio horizontal, passou a nadar em crculos cada vez menores em volta deles, como se estivesse preparando um golpe final. Os outros botes no ousavam atacar, com receio de que isso provocasse a destruio imediata dos companheiros em perigo.
  O *Pequod* se aproximou da rea onde estava Acab, que gritou para o navio:
  -- Avancem sobre...
  Nesse momento, Moby Dick provocou uma onda que quase sufocou o capito. Mas Acab retomou a frase em seguida:
  -- Avancem direto sobre o cachalote!
  Com isso, o navio se colocou entre Moby Dick e os destroos. O 
cachalote se afastou, e os outros botes foram resgatar os nufragos. Acab e os seus subiram para o bote de Stubb, e o capito ordenou que a perseguio fosse reiniciada, agora com o dobro dos homens, da fora e da velocidade num s bote. No entanto, Moby Dick tambm parecia ter redobrado as energias: seria impossvel alcan-lo com os botes, na velocidade em que ele ia.
  O cachalote escapou para sotavento. Como a perseguio deveria ser prolongada, a melhor soluo foi ir atrs dele no prprio navio. A cada vez que Moby Dick mergulhava, Acab contava, inquieto, o tempo no relgio at a nova subida dele para respirar. Assim foi at o fim do dia. Durante a noite, continuamos para sotavento, mas mais devagar para no ultrapassar o cachalote. Acab despertava de quando em quando para perguntar se havia alguma novidade.
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  No segundo dia, demoramos a avistar novamente Moby Dick, mas quando ele surgiu foi num salto repentino e alto para cima da superfcie, a pequena distncia. Ao cair, espirrou montanhas de gua para todos os lados, como se estivesse fazendo um desafio.
  -- Esse foi o seu ltimo suspiro, Moby Dick -- gritou Acab. -- Desam para os botes, todos! Starbuck, fique no navio, afastado mas sem deixar de estar por perto!
  Como se estivesse querendo apavorar as tripulaes, Moby Dick veio na direo dos botes. O de Acab era o do centro. Os arpes foram disparados de todos os escaleres, mas Moby Dick pareceu no perceber, jogando-se contra todos quase ao mesmo tempo.
  O cachalote tanto passou para um lado e para outro, que as linhas dos arpes cravados nele se cruzaram, emaranhadas. Em seguida se afastou, arrastando os trs botes, que se entrechocavam em tremenda confuso e balbrdia. Acab, que gritava mais alto que todos os outros juntos, cortou os cabos embaraados, soltando sua arpoeira. Moby Dick jogou o bote de Flask contra o de Stubb como se fossem duas casquinhas e mergulhou  toda.
  Os marinheiros das duas tripulaes giravam na gua, dobrando as pernas para escapar a possveis mordidas, quando de repente o bote de Acab subiu no ar, como se puxado por cordas invisveis. Subindo como uma flecha, Moby Dick tinha acertado com a cabea o fundo do barco, que voou, girando, at cair emborcado. Acab e os outros lutaram para sair de baixo do bote.
  Ao sentir os fragmentos dos barcos, Moby Dick batia neles para os lados com a cauda, e assim se afastou -- como se tivesse acabado de cumprir seu dever.
  O *Pequod* se aproximou e fez o salvamento. Muitos marinheiros estavam contundidos, com ombros deslocados, tornozelos torcidos e outros problemas, mas, como no dia anterior, parecia que estavam todos vivos.
  Quando Acab, agarrado  metade que sobrara de seu bote, foi ajudado a subir, todos os olhares se voltaram para ele: quase nada mais restava, a no ser uma lasca, de sua perna de marfim.
  -- Espero que no tenha quebrado nenhum osso -- disse Stubb, preocupado.
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  -- Mesmo que tivesse quebrado, eu estaria intacto -- foi a resposta de Acab. -- Pois no considero meu nenhum osso vivo, mais do que o osso morto que perdi. Nenhum homem, nem o Diabo, nem o prprio cachalote branco conseguem sequer arranhar Acab. Voc a do mastro, para que lado ele foi?
  -- Para sotavento, capito.
  -- Desam os botes de reserva, imediatamente! E me passem uma bengala! Mas no estou vendo o...
  Foi s ento que todos demos pela falta de Fedul.
  -- Deve ter sido apanhado pelas linhas embaraadas -- concluiu 
 Stubb.
  -- Fiquem firmes -- exclamou Acab. -- Vou acabar com o cachalote branco, nem que tenha de dar dez voltas ao mundo.
  -- Deus do cu! -- disse
 Starbuck, bem alto. -- Deus, aparea e mostre como isto tudo  pior que a loucura do demnio. Velho, j chega! Voc nunca vai conseguir pegar a baleia! Ser que vamos ter de esperar que esse peixe assassino mate at o ltimo homem para desistir dessa insensatez?
  -- Starbuck, Acab sempre ser Acab -- respondeu o capito. -- Tudo isto  inevitvel, j estava decretado. Voc e eu ensaiamos esta cena um bilho de anos antes de existir sequer este oceano. Eu sou o capataz do Destino, cumpro apenas ordens. Prestem ateno, meus auxiliares, para obedecer s minhas. Agora escutem: tudo o que afunda de vez sobe duas vezes antes de se acabar.  o que est acontecendo com Moby Dick: ele flutuou dois dias. Amanh ser o terceiro, o dia em que o cachalote branco ir esguichar pela ltima vez. Agora quero ver a coragem de vocs!
  -- Estamos a postos! -- exclamou Stubb. -- Conte conosco.
  -- Pois bem, os adivinhos fizeram uma previso de que Fedul iria antes de mim, mas seria visto ainda uma vez depois disso, e s ento eu seria levado, em outro caixo. Agora me digam: quem foi que viu Fedul novamente depois que ele desapareceu? Pois ento, no h com que se preocupar.
  Quando a noite chegou, Moby Dick ainda era visto para os lados de sotavento. O carpinteiro fez uma perna nova para Acab com a quilha do bote destrudo, e o capito passou a noite acordado, com os olhos fixos na direo do leste, esperando o sol raiar.

               oooooooooooo

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 13. O encontro final

  O terceiro dia amanheceu com clima fresco e agradvel. Durante a noite, apenas um marinheiro ficava de vigia no mastro principal; logo ele foi substitudo por vrios outros, que subiram para o topo de todos os mastros e vergas disponveis.
  -- J viram algo? -- perguntou Acab, mas o cachalote ainda no tinha aparecido. -- Que bela manh! -- continuou ele. -- O primeiro dia do mundo no deve ter sido melhor que este! Mas isso faz a gente pensar, e Acab no est aqui para pensar; Acab s sente. Esse mesmo vento que empurra o navio  que sopra a minha alma para a frente.
  O tempo passava, e nada de Moby Dick. Ao meio-dia, Acab ordenou que o erguessem at o topo do mastro principal. Uma hora depois, ele avistou ao longe o jato, o esguicho do cachalote, e em seguida ouviram-se trs gritos, dos vigias dos mastros maiores.
  "Deus me proteja", pensou
 Starbuck, "mas j estou sentindo os ossos midos dentro de mim, molhando minha carne por dentro. Sinto que desobedeo a Deus quando obedeo a Acab."
  Preso por cordas, o capito foi baixado para o convs. Num instante os botes estavam na gua.
  -- Tubares!... Volte, capito! -- gritou algum, de bordo, mas Acab no ouviu.
  Na verdade, um bando de tubares sara de baixo do navio e comeara a acompanhar o escaler de Acab, mordiscando as pontas dos remos, sem se preocupar com os outros botes. Moby Dick havia submergido.
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  Depois de algum tempo a gua em redor comeou a subir, primeiro devagar, em crculos, depois subitamente, como se uma montanha de neve rompesse a superfcie. Com grande estardalhao, arrastando vrios arpes, lanas e cordas presos  cabea e ao corpo, Moby Dick parecia enfurecido. O cachalote branco avanou para os botes, agitando a cauda entre eles. Os escaleres dos imediatos ficaram danificados, mas Moby Dick deixou o de Acab ileso.
  Quando o grande cetceo se virou para atacar de novo, pde-se ver 
uma cena horrvel: amarrado pelas cordas embaraadas em torno de Moby 
Dick, estava o corpo de Fedul, bastante ferido. Com os olhos bem 
abertos, ele parecia olhar fixamente para o velho
 Acab.
  Paralisado pela surpresa, Acab deixou cair o arpo das mos, e exclamou:
  --  verdade, Fedul, a est voc de novo. Mas onde est o outro caixo? Imediatos, voltem para o navio e consertem os botes. Voltem o mais rpido que puderem. Mas, dos que esto comigo, quem se atrever a pular do bote ser arpoado por mim.
  Enquanto isso, Moby Dick escapava a grande velocidade, parecendo no estar mais preocupado com seus perseguidores.
  -- Veja, Acab, Moby Dick no est atrs de voc -- disse
 Starbuck, do navio. --  voc quem vai loucamente atrs dele. Nunca  tarde para desistir, 
 Acab.
  O capito aproximou seu bote do navio e respondeu ordenando que Starbuck o seguisse a uma distncia adequada. Enquanto isso, os outros dois botes eram erguidos pela beirada do *Pequod*. Os arpoadores, Quiqueg, Tachtego e Dagu, subiram para os mastros de vigia. Ao ouvir as marteladas dos imediatos Stubb e Flask, que fixavam novos pregos nos escaleres, Acab sentiu-se como se um prego estivesse sendo martelado bem no seu corao.
  Talvez cansado pelos trs dias seguidos de caa, ou talvez pela astcia de preparar alguma armadilha, o fato  que Moby Dick passou a reduzir a velocidade, permitindo a aproximao. Os tubares que acompanhavam Acab mordiam os remos com mais fora, tirando lascas deles.
  Quando o bote do capito chegou bem ao lado de Moby Dick, o cachalote agiu como se no estivesse percebendo nada, como se no fosse com ele. Ento,
<82>
Moby Dick soltou vrios esguichos de gua para cima, e Acab ficou envolto pela neblina que a gua borrifada criou em redor.
  Aproveitando o momento, o capito Acab jogou seu arpo contra Moby Dick, soltando uma praga ao mesmo tempo. O cachalote branco foi atingido e imediatamente deu uma forte sacudida na corda que o prendia, quase virando o bote. Trs dos marinheiros caram na gua; dois deles conseguiram voltar para junto do escaler e se agarraram nos costados, mas o terceiro ficou para trs,  deriva. Quanto a Acab, permaneceu firme a bordo, agarrado  proa. Em seguida, Moby Dick saiu em disparada pelo mar agitado, com o arpo de Acab firmemente enterrado em sua carne. O puxo que o cachalote deu, no entanto, foi to forte que a corda se rompeu.
  -- Alguma coisa rebentou dentro de mim! -- exclamou Acab. -- Vamos, marinheiros, continuem o ataque!
  Moby Dick se virou e deu com o *Pequod*, que avanava naquela direo. Talvez o cachalote tenha entendido que o navio, pelo tamanho, era o maior inimigo a combater, e se virou com a queixada torta aberta na direo da proa.
  -- Estou cego! -- gritava
 Acab. -- J  noite? Salvem o navio!
  Quando os remadores faziam fora para virar o bote, duas pranchas da proa se quebraram, tirando a estabilidade do barco. Os marinheiros que estavam no navio pareciam enfeitiados, de olhos fixos no cachalote. A slida cabea do animal se chocou com a proa, do lado de estibordo; todo o navio estremeceu, alguns marinheiros caram no cho.
  A gua comeou a entrar pelo buraco feito no casco por Moby Dick.
  -- Estou vendo! O *Pequod*  o segundo caixo! -- gritou Acab.
  Moby Dick mergulhou por baixo do navio, que comeava a afundar, e surgiu do outro lado da proa, perto do bote do capito.
  -- Cachalote amaldioado, que destri tudo e no conquista nada! -- continuava ele a gritar. -- Minha maior grandeza  minha maior dor. Vou continuar a persegui-lo, mas preso a ele. Tome mais esta!
  E atirou outro arpo. Moby Dick, novamente ferido, saiu em velocidade desabalada, desenrolando a corda. Acab tentou segur-la, mas ela se enrolou em seu pescoo, e o capito foi puxado para a gua antes que algum pudesse tentar
<83>
fazer alguma coisa. O lao final da corda se soltou da arpoeira e foi tambm para debaixo da gua, chicoteando um remador para fora do bote.
  S ento os marinheiros do escaler se deram conta:
  -- O navio? Meu Deus, onde est ele?
  A essa altura, s os mastros mais altos ainda apareciam fora da 
gua. Os trs arpoadores, como que cumprindo um dever, afundavam, imveis, agarrados a eles.
  Formaram-se ento crculos concntricos na gua, arrastando para o fundo tudo o que flutuava: remos, pedaos de madeira, instrumentos e objetos de bordo, juntamente com os marinheiros agarrados a eles.
  Pequenas aves voltejavam agitadas sobre a espuma que se formava ao final de tudo, e logo depois 
<p>
tudo voltou ao normal: o mar profundo continuou a ondular como fazia h mais de cinco mil anos.

               oooooooooooo

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 Concluso

  Mas como foi possvel contar essa histria? No morreram todos, no se encerrou tudo? O fato  que algum sobreviveu. Quis o Destino que fosse eu o poupado. Depois que Fedul desapareceu e Acab tomou o lugar do arpoador no bote, fui o escolhido para ser o primeiro marinheiro da proa.
  Quando Moby Dick puxou a corda do arpo, fazendo cair trs homens na gua, eu fui aquele que no conseguiu voltar para o bote. Continuei a nadar, para me manter  tona, e assisti a toda a cena final da caada.
  Eu estava um tanto afastado do ponto em que o *Pequod* afundou, mas mesmo assim quase fui sugado pelo redemoinho. As guas me levaram em crculos, se fechando, at que eu chegasse ao centro mesmo do naufrgio, mas j sem fora para me fazer afundar.
  De repente, subiu do fundo o caixo salva-vidas, que se des-
 prendeu do navio, vindo direto para junto de mim. Agarrei-me a ele e fiquei ali, boiando um dia e uma noite. Os tubares em redor ficaram de boca fechada, como que inofensivos. As aves selvagens do mar no vieram me bicar.
  No dia seguinte, fui recolhido por um veleiro. Era o *Raquel*, que continuava a navegar sem rumo certo, de um lado para outro, em busca de seus filhos perdidos, e agora encontrava apenas um outro rfo.

               oooooooooooo

<88>
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 O vocabulrio deste livro

  A histria que acabamos de ler, Moby Dick, se passa no mar e foi 
escrita h mais de cento e cin-
 qenta anos. Por isso, traz vrias 
palavras e expresses que hoje no se usam mais.
  Antes de mais nada,  preciso lembrar que naquela poca a preocupao com a ecologia era bem menor que hoje. Quase ningum tinha percebido ainda a necessidade de preservar as baleias para termos um mundo melhor, com a natureza mais equilibrada. Assim, os grandes cetceos eram caados  vontade nos oceanos, por marinheiros especializados a bordo de navios baleeiros. Hoje essa atividade  proibida em quase todo o mundo, mas alguns pases continuam a matana desses animais, que ainda existem hoje e chegam a ser to grandes como os maiores dinossauros, j extintos.
  Como as baleias vivem na gua, costuma-se chamar essa atividade de "pesca". Por outro lado, devido  forma como ela  realizada, com muita violncia e risco de vida, pode-se dizer que se trata de uma verdadeira caada; por esse motivo, tanto a palavra "caa" como o termo "pesca" so usados no caso.
  Algumas misturas ou confuses entre palavras tambm ocorriam antigamente quando se falava nos grandes cetceos como as baleias. Devido  sua forma e ao fato de viverem na gua, apesar de eles serem mamferos, era comum cham-los de "peixes", como voc deve ter notado ao ler a histria de Moby Dick. Por falar nisso, Moby Dick era um cachalote; cachalote faz lembrar baleia, e no livro sempre se fala em baleia quando ele  mencionado. No entanto, atualmente a biologia afirma que os cachalotes no podem ser classificados como baleias. Na verdade, eles so mamferos marinhos do mesmo grupo dos golfinhos, mas chegam a atingir dezoito metros de comprimento e a pesar trinta e seis toneladas.
  Na poca de Moby Dick, para atravessar os oceanos, os navios no tinham motores; eles dependiam do vento que os empurrava ao soprar nas velas de vrios tamanhos e formatos.
  As velas eram presas com cordas e cabos a mastros que deviam ser manejados da maneira certa para controlar a velocidade e levar o navio na direo desejada. A falta de vento se chama calmaria. Quando os navios veleiros se viam nessa situao, ficava mais difcil avanar. Por outro lado, quando os ventos sopravam com fora excessiva, provocando tempestades, tambm era exigida muita habilidade dos marinheiros ao manejar as velas para evitar o naufrgio ou qualquer outro acidente.
  A seguir, a interpretao de algumas palavras mais especficas 
<p>
que aparecem nesta verso de Moby Dick:

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<R+>
 Amurada --  a parte de cima do costado do navio, como se fosse uma parede a separ-lo do vento e das guas.
 Arpoador, arpoeiro -- Era o marinheiro que atirava o arpo nos animais caados; o arpo  uma espcie de lana de ferro que fica amarrada a uma corda.
 Baleeiro -- Dava-se o nome de baleeiros tanto aos navios que se dedicavam  pesca da baleia quanto aos marinheiros que trabalhavam nessa atividade.
 Barlavento --  o lado de onde sopra o vento.
 Bombordo --  o lado esquerdo do navio, para quem o olha de trs para a frente.
 Bujarrona -- A bujarrona  uma vela triangular, a maior das que ficam na parte da frente do navio.
 Cabrestante --  uma pea grande em torno da qual gira um tambor, onde se amarram cordas ou correntes que servem para levantar a ncora ou outras coisas pesadas do navio.
 Camarote --  uma cabine onde dormem ou ficam alojados at quatro passageiros ou tripulantes principais de um navio.
 Cesto da gvea -- O cesto da gvea  uma plataforma de madeira e metal, com proteo dos lados, presa na parte mais alta do mastro principal, onde um marinheiro ficava de vigia para ver de longe os grandes animais ou os outros navios que passassem.
 Cetceo -- Os cetceos so mamferos aquticos. Muitos deles vivem no mar, outros em rios e lagos. Baleias, cachalotes, orcas, golfinhos e botos so cetceos.
 Convs --  o piso principal do navio, geralmente ao ar livre, mas com algumas partes cobertas.
 Escaler -- Um escaler  uma embarcao pequena, um bote. Os navios levam escaleres pendurados ou presos na parte de cima das laterais.
 Estibordo --  o lado direito do navio, para quem o olha por trs.
 Gvea -- A gvea  a parte de cima do mastro principal, o mais alto (tambm chamado mastro real) do navio veleiro.
 Navio mercante -- O navio mercante se destina principalmente a carregar mercadorias, embora tambm possa levar passageiros.
 Ovm -- Os ovns so os cabos ou cordas que prendem as velas s beiradas do navio.
 Passadio -- O passadio  uma plataforma mais alta do que o convs;  uma espcie de corredor curto, onde geralmente fica o capito, ou comandante, para ver melhor o convs e o mar.
 Quilha -- A quilha  uma pea que vai da ponta da frente at a de trs de um barco, embaixo; nela se prendem as peas laterais que formam a estrutura dos dois lados da embarcao. Vista sem os revestimentos,  como se fosse uma espinha.
 Popa -- A ponta de trs do navio.
 Proa --  a ponta da frente.
 Sotavento --  o lado para onde o vento sopra.
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 Uma histria repleta de sentidos

  Moby Dick no  simplesmente a histria da caada de um dos maiores animais da Terra. Um resumo deste livro poderia dizer apenas o seguinte: na poca em que no havia regras para a caa de baleias e outros grandes cetceos marinhos, um cachalote branco devorou a perna do capito Acab, comandante do navio baleeiro que tentava captur-lo. Agora, o mesmo capito atravessa os mares, a bordo do *Pequod*, pensando exclusivamente em vingar-se. Acab no tem nenhum interesse na pesca de baleias ou de outros animais: com sua tripulao, ele vasculha os oceanos at encontrar o imenso cachalote, Moby Dick, e acabar fracassando em seu maior objetivo, praticamente o nico de sua vida. Moby Dick faz o *Pequod* naufragar, matando todos os marinheiros do navio. Apenas um se salva, chamado Ismael, e  ele quem conta a histria do livro.
  No entanto, logo de incio os leitores desta obra perceberam ou imaginaram que deveria haver outros sentidos na histria, muito mais profundos do que o mero relato de uma caada obsessiva atravs dos mares. Vrias interpretaes foram sugeridas.
  A mais comum  a de que Moby Dick  uma representao da luta entre o bem e o mal. Muitos estudiosos da obra afirmaram que o grande cachalote seria uma imagem do mal que o ser humano se sente obrigado a combater sempre, em qualquer parte. Se fssemos pensar assim, estaramos diante de uma histria em que o mal vence no fim.
  No entanto, tambm se poderia dizer, ao contrrio, que o cachalote seria o bem, perseguido pela maldade dos homens. Ainda de acordo com essa hiptese, podemos pensar no cachalote (e nas baleias que aparecem no livro) como uma representao da natureza, sempre agredida, perseguida e dizimada pelo homem, e considerar toda a histria de Moby Dick como uma representao da luta dos homens contra o mundo natural. Nessa interpretao, prevalece a idia de que a natureza sempre conseguir se salvar, por mais encarniada que seja a agresso feita a ela pelo homem -- e mais: se tentar ultrapassar os limites, o homem pode ser destrudo por ela. Nesse sentido, Moby Dick apresenta tambm uma das caractersticas humanas mais marcantes: muitas vezes, a luta para alcanar um objetivo se torna uma obsesso. Nesses casos, realizar o que se quer se torna uma verdadeira idia fixa para pessoas que no medem as conseqncias do que fazem, mesmo que todos os sinais indiquem a derrota final.
  Tambm se disse que Moby Dick representa um outro tipo de luta mais particular: a revolta do ser humano contra as regras de comportamento que comearam a tomar conta da sociedade americana no sculo XIX. Essas regras constituam o puritanismo, cada vez mais dominante nos Estados Unidos, e o autor da histria -- Herman Melville -- teria realizado nesta histria uma forma artstica de mostrar o quanto estava em desacordo com elas.
  Talvez todas essas interpretaes estejam certas, mas o que importa  que Herman Melville construiu, com Moby Dick, um dos romances mais impressionantes da histria da literatura.

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<91>
<p>
 Os nomes e os temas bblicos

  Na sociedade em que Melville viveu, a influncia da Bblia no cotidiano das pessoas era grande. Vrios dos personagens principais de Moby Dick tm o mesmo nome de algumas figuras importantes do livro sagrado dos judeus e dos cristos. Reconhecer o nome desses personagens e seu papel nas histrias da Bblia ajuda a entender melhor o romance que acabamos de ler.
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 Acab -- Acab (que em ingls  Ahab) foi um rei de Israel, oitocentos anos antes de Cristo. Na Bblia,  um rei malvado que desobedece s ordens de Deus e acaba tendo uma morte trgica.
 Bildad -- Bildad  amigo de J, que  um homem muito rico que perdeu 
todas as posses. Com outros amigos, vem consolar J, mas muitas vezes 
mais atrapalha do que ajuda.
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 Elias --  um profeta que, segundo a Bblia, Deus enviou para 
denunciar a maldade de
  Acab.
 Ismael -- Ismael  filho de Abrao, o grande patriarca tanto dos 
judeus como dos rabes, e por esse motivo se pode dizer que judeus e 
rabes so povos irmos. Abrao teve dois filhos: um com sua mulher, Sara, chamado Isaac; o outro, Ismael, era filho de Agar, escrava de Sara. Devido ao cime de Sara, Abrao mandou Agar e Ismael para o deserto. O nome de Ismael significa "Deus escuta", e esse personagem tambm  interpretado como "o exilado".
 Jeroboo -- Quando morreu Salomo, o mais poderoso rei de Israel, a nao se dividiu em dois reinos: o de Jud (de onde vem a palavra "judeus"), governado por Roboo, filho de Salomo; e o de Israel, governado por *Jeroboo*. A maioria dos israelitas no queria mais ser governada pela famlia de Salomo, pois esse rei, o mais sbio dos homens, havia se tornado na velhice um homem desobediente a Deus. Assim, o povo preferiu *Jeroboo*, um trabalhador.
 Jonas -- Segundo a Bblia, Deus ordenou que Jonas fosse pregar a 
palavra divina em Nnive, onde outros deuses eram adorados. Como Jonas vacilou, Deus mandou uma baleia (ou um peixe grande), que o engoliu. Jonas ficou dentro desse animal durante trs dias e depois foi "vomitado" perto de Nnive. Dentro da baleia, Jonas rezou para Deus; ao sair, cumpriu a ordem recebida.
 Peleg -- Peleg  um dos personagens mais antigos da Bblia. Surge 
antes at de Israel. O nome dele significa "diviso", e a Bblia diz que foi na sua poca que "a terra foi dividida".
 Raquel -- Jac, que recebeu de Deus tambm o nome de Israel, se 
casou com duas irms, Lia e Raquel. Jac teve dez filhos e uma filha 
com Lia e com duas escravas, e parecia que Raquel no conseguiria ter 
nenhum. Finalmente, Jac e Raquel tiveram Jos, mas os dez irmos 
mais velhos, enciumados porque o caula era o mais querido do pai, 
venderam-no como escravo. No Egito, Jos se tornou muito poderoso. 
Raquel teve outro filho, Benjamim. Jos mandou busc-lo. Jac 
(Israel) ficou com medo de deix-lo ir e perder tambm mais esse 
filho de Raquel.
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 Quem escreveu Moby Dick

  Herman Melville, o autor de Moby Dick, nasceu em Nova York, nos Estados Unidos, em 1 de agosto de 1819. Quando tinha onze anos, os negcios de seu pai foram  falncia, e a famlia toda (pai, me e oito filhos) se mudou para Albany, uma cidade do interior, em busca de uma situao melhor.
  Dois anos depois, porm, o pai morreu; a me e os filhos tiveram de 
arranjar formas de se sustentar. Herman tinha treze anos, e largou a 
escola para trabalhar num banco. Porm, como era um bom aluno de redao, no via a hora de voltar aos estudos, coisa que fez aos dezesseis anos, quando entrou na Escola Clssica de Albany.
  Em 1837, Herman Melville se tornou professor primrio. Da a dois anos, publicou num jornal do interior o seu primeiro conto, "Fragmentos redigidos numa escrivaninha". Apesar disso, quando chegou aos vinte anos de idade, diante da dificuldade de encontrar um emprego fixo, sentiu vontade de mudar de vida e comeou a procurar alternativas.
  Com a ajuda do irmo mais velho, arranjou emprego no navio *St. 
Lawrence*, que partia para o porto de Liverpool, na Inglaterra. A 
viagem no o agradou, tampouco: os marinheiros eram pessoas rudes e 
de pouca educao, Liverpool era uma cidade suja e pobre. Voltou para 
Nova York no prprio *St. Lawrence* e aproveitou a experincia da 
viagem para escrever um livro, *Redburn*, que foi publicado dez anos depois.
  Voltou a dar aulas no interior e ainda tentou a sorte no Velho 
Oeste, mas voltou to sem dinheiro como antes e acabou indo parar em 
New Bedford, cidade litornea perto de Nova York e de onde partia a 
maior parte dos navios baleeiros do mundo na poca. Assim, em janeiro 
de 1841, embarcou no navio *Acushnet*, um navio de 26 tripulantes que fazia a pesca da baleia.
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  Saindo da Amrica do Norte, esse baleeiro passou pelas ilhas dos 
Aores e deu a volta em redor da Amrica do Sul, fazendo escala no 
Peru antes de se aventurar pelas guas do Pacfico sul. Melville 
relatou que tambm estiveram nas ilhas chilenas de Juan Fernndez, 
onde viveu o nufrago solitrio Alexander Selkirk. Foi nas aventuras 
desse marinheiro escocs que o escritor Daniel Defoe se baseou para 
escrever seu grande romance, *Robinson Crusoe*.
  Em julho de 1842, o 
 *Acushnet* estava nas ilhas Marquesas, na Polinsia, um grupo de arquiplagos do sul do Pacfico. Melville desembarcou com outro marinheiro, apelidado Toby. Queriam conhecer os nativos e para isso entraram nas florestas da ilha. Acabaram sendo presos pelos taipis, que tinham fama de canibais, mas como Melville estava ferido eles permitiram que Toby sasse para buscar remdios.
  Toby no voltou mais, e Herman Melville teve de esperar um ms at que o *Mary Ann*, um baleeiro da Austrlia, viesse salv-lo. Mais tarde, no Hava, alistou-se na marinha dos Estados Unidos.
  No *United States*, navio em que prestou o servio, conheceu a dura 
realidade das chicotadas que eram dadas pelos oficiais nos 
marinheiros por qualquer motivo insignificante. Alm disso, raramente 
era dada permisso para descerem nos portos. Isso, porm, no o 
incomodou, pois nos navios sempre havia livros. Assim,
 Herman Melville podia passar o tempo livre a ler e a desenvolver sua tcnica de escritor.
  Em outubro de 1844 deu baixa na marinha. Ele j tinha vivido muitas aventuras, mas ainda estava com vinte e cinco anos de idade. Em trs anos, Herman Melville havia percorrido todo o oceano Pacfico. As aventuras da caa dos grandes cetceos tinham momentos emocionantes como aqueles em que a baleia, depois de arpoada, fugia velozmente pela superfcie, a arrastar por grandes distncias o bote cheio de marinheiros. O bote corria preso pelas cordas dos arpes cravados na baleia, e essas cenas ficaram gravadas nas lembranas de Melville, que logo tratou de relat-las em seus livros.
  Assim, quando voltou aos Estados Unidos, escreveu dois romances 
baseados nessas aventuras: Taipi (de 1846) e Omoo (de 1847), que 
alcanaram grande sucesso de pblico. Ainda em 1847, casou-se com 
Elisabeth Shaw, estabelecendo-se em Nova York, e escreveu *Mardi*, um 
romance de aventuras fantsticas passadas na Polinsia, no estilo do 
maravilhoso livro Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. A partir 
da, os leitores esperavam novos livros com aventuras eletrizantes, 
mas Melville passou a escrever romances mais elaborados, com 
reflexes muitas vezes melanclicas sobre a condio do ser humano, 
como *Redburn* e *Jaqueta Branca* (de 1850), no qual critica a disciplina da marinha americana da poca, baseada nos castigos corporais. Isso provocou a retrao do pblico, que foi deixando de apreciar seus livros.
  Herman Melville comeou a estudar as obras do ingls William 
Shakespeare (1564-1616). Tam-
 bm se tornou muito amigo de outro escritor americano, Nathaniel 
Hawthorne, que escreveu um dos romances mais importantes da 
literatura americana, *A letra escarlate* (1850), obra que denuncia com firmeza o puritanismo dominante nos Estados Unidos. Essas duas influncias foram decisivas para aprofundar a qualidade e o tom mais srio de suas obras, e o levaram a
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escrever e publicar em 1851 sua obra-prima, *Moby Dick*. A perseguio obsessiva do cachalote branco pelo capito Acab, alternando beleza e terror, deixou inquietos os leitores, que no perceberam a representao, na histria, das vitrias e derrotas do ser humano e da luta de nosso impulso criativo. 
  Sua inspirao para criar o nome de Moby Dick foi uma histria que corria entre os marinheiros, de uma baleia branca chamada Mocha Dick. Dizia-se que ela j tinha causado a morte de mais de trinta caadores de baleias.

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 A vida difcil depois de Moby Dick
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  Depois disso, Melville ainda lanou outros livros, e entre eles se 
destaca *Bartleby, o escriturrio* (1853), uma obra em que representa 
os absurdos que o ser humano cria para si prprio com as burocracias. 
Esse livro faz uma antecipao dos temas presentes nos romances do 
tcheco Franz Kafka, que viria a tratar desse mesmo tipo de situao 
em obras como *O processo*, na primeira metade do sculo XX.
  Melville teve quatro filhos e passou dificuldades, diante do pouco 
sucesso como escritor. A situao se agravou quando os Estados Unidos 
entraram em guerra civil, de 1861 a 1865. Por isso, foi procurar 
emprego na alfndega de Nova York, onde trabalhou como inspetor at 
se aposentar em 1888, aos sessenta e oito anos de idade. Ainda teve 
tempo de escrever mais um romance de aventuras no mar, *Billy Bud*, que 
s foi publicado depois de sua morte, ocorrida em 28 de setembro de 
1891, aos setenta e nove anos.
  A obra de Herman Melville foi pouco compreendida na poca; mais do 
que escrever um romance de aventuras, ele aproveitava a ao contida 
no livro para tratar das grandes dvidas, dos medos e dos anseios do 
ser humano. Assim, Melville foi reconhecido como um excelente 
romancista apenas depois de sua morte, sendo hoje considerado um dos 
principais escritores do sculo XIX.

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 Fim da Obra

 